“O meu corpo falou mais alto que a minha carreira”: Nianara Bighetti abre o coração sobre burnout, superação e novos ciclos
Compartilhe:Jornalista relembra o início da carreira, fala sobre a saída do SBT, saúde mental, maternidade e os desafios de recomeçar.
A comunicação entrou cedo na vida de Nianara Bighetti. Aos 17 anos, ela deu os primeiros passos na televisão no programa de Wilson Tony e, desde então, construiu uma trajetória sólida como jornalista, apresentadora, mestre de cerimônias e criadora de conteúdo. Ao longo da carreira, passou por emissoras como Record TV e SBT, onde permaneceu por oito anos e comandou o programa Tudo de Ótimo. Em 2025, decidiu encerrar seu ciclo na emissora para viver uma nova fase profissional.
Em entrevista ao podcast Pode Mulher, apresentado pela jornalista Juliana Rangel, Nianara Bighetti relembrou o início da carreira, compartilhou os bastidores do diagnóstico de burnout e depressão, refletiu sobre a sobrecarga feminina e contou como aprendeu que sucesso profissional não pode estar acima da saúde e da família.

A jornalista, apresentadora e mestre de cerimônias Nianara Biguetti participou do podcast Pode Mulher e falou sobre carreira, saúde mental e novos desafios profissionais. Foto: Reprodução/Instagram
Confira a entrevista:
Nianara Bighetti: Ah, Ju, que delícia estar aqui. Chega um momento da vida em que ouvir isso de pessoas que admiramos faz toda a diferença. A comunicação abriu muitas portas para mim, mas as pessoas enxergam apenas a pontinha do iceberg. A vida não é essa perfeição que aparece nas redes sociais.
Juliana Rangel: Tem muita gente que pergunta como a Nianara consegue dar conta de tudo. Eu também me pergunto isso. A gente vive muitos perrengues, não é?
Nianara Bighetti: Muitos. O nosso trabalho é muito lúdico e passa uma impressão de que está tudo sempre maravilhoso. Tem dias em que acordo pensando: “Meu Deus, preciso me maquiar, arrumar o cabelo, escolher roupa”. Nem sempre estamos com vontade, mas é o nosso trabalho, é o nosso sustento. Aprendi que o que aparece nas redes sociais representa apenas 1% da realidade. Outro dia pensei que, se alguém batesse no meu carro enquanto eu estivesse levando minha filha, eu desceria de pijama mesmo. (Risos)
Juliana Rangel: Existe uma sobrecarga muito grande para as mulheres, não existe?
Nianara Bighetti: Existe demais. Amo ser mulher, amo ser mãe, mas existe um peso muito maior sobre as nossas responsabilidades. Na primeira semana em que fiquei desempregada, muita gente perguntava o que eu faria. Eu respondia brincando que iria aproveitar o seguro-desemprego, assistir Sessão da Tarde e julgar quem estava na televisão. Mas a verdade é que, no primeiro sábado, em vez de descansar, eu estava organizando a casa. Parece que a gente nunca consegue desligar esse modo de estar sempre fazendo alguma coisa.
Juliana Rangel: Depois de oito anos no SBT, como foi tomar a decisão de sair da emissora?
Nianara Bighetti: Encerrar ciclos nunca é simples. Foi uma decisão muito conversada com a minha família. Eu chamava o SBT de “minha casinha”, porque passava mais tempo lá do que na minha própria casa. Dói, porque eu criei o projeto Tudo de Ótimo e tenho muito carinho por tudo o que vivi ali. Mas chegou um momento em que percebi que precisava viver outras experiências. Queria coisas simples, como poder fazer um bolo com o meu filho Bernardo.
Juliana Rangel: Eu vivi algo parecido quando saí da EPTV. Parece que estamos perdendo uma parte da nossa história, mas, ao mesmo tempo, é libertador.
Nianara Bighetti: É exatamente isso. Só que, além disso, eu tive problemas de saúde. Em 2024 recebi os diagnósticos de burnout e depressão. Minha família acompanhou tudo de perto. Minha filha, de 13 anos, presenciou momentos muito difíceis. Ao mesmo tempo, minha mãe iniciou um tratamento de quimioterapia e eu já havia perdido meu pai. Foi quando entendi que o tempo não volta e que eu precisava fazer escolhas diferentes.
Juliana Rangel: Como você percebeu que precisava procurar ajuda profissional?
Nianara Bighetti: Tudo começou com a insônia. Depois eu já não conseguia mais me arrumar. Meu olho tremia o tempo todo, eu chorava sem parar. Quando recebi o diagnóstico de burnout, fiquei revoltada. Pensava: “Como vou parar? Tenho contas para pagar, tenho programa”. Mas o corpo fala. Quando procurei um psiquiatra e consegui quebrar o preconceito que eu mesma tinha em relação à medicação, minha vida mudou. Entendi que não era fraqueza. Era tratamento.
Juliana Rangel: Você chegou a procurar atendimento no pronto-socorro, não foi?
Nianara Bighetti: Sim. Fui ao hospital e fiquei até com vergonha, porque via pessoas procurando atendimento por dores físicas, enquanto eu estava com uma dor na alma. Mas fui muito bem acolhida. Recebi um afastamento de oito dias e também precisei explicar ao Danilo, meu marido, que nem tudo ele conseguiria resolver por mim. É um processo de autoconhecimento. Inclusive, pedi desculpas para a minha terapeuta, a Dra. Kelly, porque naquela época eu tinha muita resistência em aceitar que precisava parar.
Juliana Rangel: O mercado da comunicação mudou muito nos últimos anos, principalmente com as lives.
Nianara Bighetti: Mudou completamente. Eu nunca tinha feito lives de vendas, mas, quando surgiu o desafio, fui estudar e aprender. Hoje existe um mercado enorme para quem sabe se comunicar. Ninguém nasce sabendo. A gente aprende, se aprimora e cresce. As marcas passaram a enxergar o valor dos comunicadores que realmente geram conexão com o público.
Juliana Rangel: Vamos voltar ao começo da sua trajetória. Como foi iniciar com o Wilson Tony?
Nianara Bighetti: Foi uma escola. Ali a gente tinha espaço para errar e aprender. Se chegasse para o Zé Fernando dizendo que não sabia fazer alguma coisa, ele respondia: “Então aprende”. Trabalhei com uma turma enorme, como Lincoln Fernandes, Ludmilo Ozório, Homero e Fabiano. E o que sobrava para mim era justamente fazer merchandising, algo que muita gente não queria. Mas o Tony dizia uma frase que nunca esqueci: “Quer ganhar mais? Venda”. Foi ali que entendi que emissora também é uma empresa.
Juliana Rangel: Naquela época existia preconceito com quem fazia merchandising?
Nianara Bighetti: Muito. Meu primeiro ao vivo foi durante a Feap, em um pula-pula de uma loja de brinquedos. O microfone caiu e eu fiquei completamente desconcertada. Pensei que nunca mais pisaria na televisão. Mas tudo isso ajudou a construir quem eu sou hoje. O jornalismo me ensinou a questionar, a buscar respostas e a investigar. Quem gosta de perguntar “por quê?” para tudo costuma se dar bem nessa profissão. O Danilo brinca comigo até hoje dizendo: “Para de ser jornalista por um segundo e para de responder pergunta com outra pergunta”. (Risos)
Juliana Rangel: Você chegou até a narrar partidas de futebol no SBT Esportes.
Nianara Bighetti: Sim. O pessoal brincava com a minha voz e dizia que parecia voz de homem. Eu não entendia quase nada de esporte naquela época, mas estudava tudo em dois dias. Fazia praticamente uma dissertação sobre o jogo antes de entrar no ar. A comunicação exige isso da gente: estar preparada para qualquer desafio.
Juliana Rangel: Você comentou que sempre faz uma oração antes de entrar no ar.
Nianara Bighetti: Sempre. Antes de qualquer apresentação, peço para que Deus coloque as palavras certas na minha boca e permita que elas alcancem quem precisa ouvi-las. Às vezes aquilo que digo não faz sentido para uma pessoa, mas pode transformar o dia de outra que está passando por um momento difícil.
Juliana Rangel: Que legado você espera deixar?
Nianara Bighetti: Quero compartilhar a verdade com humildade. Não desejo que ninguém passe pelo que eu passei, mas, se passar, que saiba que existe um caminho de volta. É possível se levantar.
Juliana Rangel: Para encerrar, o que você diria para aquela Nianara que estava começando a carreira?
Nianara Bighetti: Eu diria para ela não ter medo. Vai dar tudo certo. Mesmo as coisas difíceis que vão acontecer, um dia elas vão fazer sentido. Hoje entendo que tudo faz parte da minha história. Sou feliz, sou muito grata por tudo o que vivi e acredito que a vida continua abrindo novos caminhos.
Ao final da entrevista, Nianara Bighetti destacou que sua maior conquista hoje não está apenas na carreira construída ao longo dos anos, mas na capacidade de reconhecer seus próprios limites, respeitar seu tempo e recomeçar.