NR-1 coloca riscos psicossociais no centro das empresas e especialistas alertam: “Não basta aplicar questionário” - Juliana Rangel

NR-1 coloca riscos psicossociais no centro das empresas e especialistas alertam: “Não basta aplicar questionário”

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Atualização da norma exige gestão contínua de fatores como sobrecarga, assédio e pressão emocional; empresas ainda têm dúvidas sobre como colocar exigências em prática

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), colocou definitivamente os riscos psicossociais no radar das empresas brasileiras. A partir de agora, fatores ligados à saúde mental e à organização do trabalho passam a integrar oficialmente o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), exigindo das organizações uma atuação mais estruturada, preventiva e contínua.

Na prática, isso significa que empresas de todos os setores precisam avaliar questões como excesso de cobrança, sobrecarga, conflitos internos, falta de apoio das lideranças, assédio, falhas na organização das atividades e outros fatores capazes de impactar diretamente a saúde emocional dos trabalhadores e o desempenho das equipes. O tema, que já vinha ganhando espaço dentro das corporações, agora assume peso ainda maior diante da exigência normativa. O próprio Manual de Interpretação e Aplicação do capítulo 1.5 da NR-1 reforça que a gestão dos riscos psicossociais não pode se limitar à produção de documentos ou ações isoladas. Segundo o MTE, é necessário desenvolver um processo permanente de identificação de perigos, avaliação dos riscos, implementação de medidas preventivas e monitoramento contínuo.

Apesar do avanço regulatório, muitas organizações ainda demonstram insegurança sobre como transformar a exigência legal em ações concretas dentro da rotina empresarial. Entre as principais dúvidas estão quais metodologias utilizar, quem deve conduzir o processo, como envolver as lideranças e se a aplicação de questionários isolados é suficiente para atender às exigências da norma. No documento oficial de perguntas e respostas divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o órgão esclarece que questionários podem ser utilizados como ferramenta complementar, mas não comprovam, sozinhos, a efetiva gestão dos riscos psicossociais.

O MTE também reforça que cada empresa deve definir profissionais ou equipes com conhecimento técnico compatível com a complexidade dos riscos avaliados. Outro ponto que chama atenção é que a nova lógica da NR-1 amplia a responsabilidade sobre o tema. A gestão dos riscos psicossociais deixa de ser tratada apenas como pauta de RH ou de saúde clínica e passa a envolver diretamente liderança, cultura organizacional, ergonomia, segurança do trabalho, comunicação interna e estratégia corporativa. Especialistas apontam que o grande desafio das empresas neste momento é abandonar uma postura meramente reativa e desenvolver políticas mais maduras e integradas.

Isso inclui capacitação de gestores, fortalecimento da comunicação interna, participação ativa dos trabalhadores e construção de ambientes mais saudáveis e sustentáveis. A discussão ganha ainda mais relevância em setores de alta pressão operacional, como saúde, agronegócio, indústria e prestação de serviços, onde o aumento das demandas, a busca por produtividade e o desgaste emocional têm impactado diretamente a saúde dos profissionais.

Além da preocupação com possíveis passivos trabalhistas, empresas começam a perceber que ambientes psicologicamente mais seguros também contribuem para retenção de talentos, melhora do clima organizacional, redução de afastamentos e aumento da performance das equipes.

Juliana Rangel
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