Fim da escala 6×1: especialista explica como empresas podem evitar uma crise
Compartilhe:Gestores que conseguirem fazer essa transição de forma planejada tendem a permanecer competitivas mesmo em um cenário de jornada reduzida
Fim da Escala 6×1: como empresas podem driblar a crise
A Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial. Agora o texto está em análise do Senado Federal. Caso seja aprovado pelos senadores como está, o texto prevê também a garantia de dois dias de descanso por semana, sendo pelo menos uma aos domingos, mensalmente, com manutenção dos salários atuais e implementação gradual de mudanças.
O impacto principal está na rotina dos grupos de trabalhadores do comércio, supermercados, farmácias, restaurantes, segurança privada e serviços trabalham seis dias seguidos para descansar apenas um. Com a nova regra, essa escala deixaria de ser permitida como padrão, exigindo reorganização das jornadas para assegurar dois dias de descanso semanal.
Apesar de benefícios para os colaboradores, a medida é vista como risco por empresários que demonstram preocupação com aumento dos custos trabalhistas (mais contratações, horas extras, escalas diferenciadas e automação), sendo mais relevantes para pequenos negócios e setores intensivos em mão de obra.
Há tanto o risco de repasse desses custos a mais para o consumidor, quanto maior chance prejuízo para negócios menos estruturados. Nesse sentido, a pior estratégia para o empresário é esperar a mudança entrar em vigor para só então reagir. Empresas que se prepararem com antecedência terão muito mais condições de absorver os impactos.
Para André Rocha, especialista em reestruturação, gestão de crise, melhoria de performance e estratégia de empresas, também sócio-fundador da Triunfae, algumas medidas podem reduzir significativamente os riscos como mapear os custos reais da operação. Muitos empresários conhecem o faturamento, mas não sabem exatamente quanto custa cada hora de trabalho em cada setor.

Fim da escala 6X1 | Foto: Banco de Imagens
É importante identificar quais áreas dependem mais de mão de obra, horários de pico e de baixa demanda, funcionários com baixa ocupação, atividades que podem ser reorganizadas. Essa análise permite evitar contratações desnecessárias. A discussão não deve ser apenas “menos horas trabalhadas”, mas “mais produção por hora trabalhada”.
Algumas ações incluem treinamento das equipes, padronização de processos, digitalização de tarefas administrativas, uso de sistemas de gestão, eliminação de retrabalho e revisão de escalas/turnos sempre que necessário. “Em muitos negócios existem jornadas montadas há anos que nunca foram reavaliadas. Pode ser útil criar turnos alternados, adotar banco de horas, flexibilizar horários, utilizar escalas diferenciadas por setor. Automatizar o máximo possível, o que não significa substituir pessoas indiscriminadamente, mas fortalecer a retenção de talentos”, detalha.
Considerando que muitas empresas operam com margens extremamente apertadas, para o especialista será necessário avaliar produtos pouco rentáveis, clientes deficitários, serviços que consomem muita mão de obra e possíveis reajustes de preços. Nem sempre aumentar vendas resolve o problema se a margem for insuficiente.
Por fim, pode ser imprescindível contar com uma consultoria que contribua com todos os aspectos, entre eles o de construir reserva financeira para os períodos de adaptação. “O maior risco não é a mudança. Historicamente, empresas raramente quebram apenas por uma alteração na legislação trabalhista. Os maiores fatores de falência costumam ser falta de gestão financeira, endividamento excessivo, baixa produtividade, ausência de planejamento e dependência de poucos clientes”, explica Rocha.
A eventual extinção da escala 6×1 pode representar um desafio importante. Porém, para empresas bem administradas, a tendência é de adaptação gradual. A questão central não é apenas trabalhar mais horas ou menos horas, mas produzir mais valor em cada hora trabalhada. As empresas que conseguirem fazer essa transição tendem a permanecer competitivas mesmo em um cenário de jornada reduzida.

André Rocha, especialista e estrategista em gestão de crises e reestruturação, sócio-fundador da Triunfae, bacharel e MBA em Administração, mestre em Direito dos Negócios | Foto: Divulgação
André Rocha – é especialista e estrategista em gestão de crises e reestruturação, sócio-fundador da Triunfae, bacharel e MBA em Administração, mestre em Direito dos Negócios e autor do livro O Combate à Fraude na Recuperação Judicial (Thomson Reuters). Também é vice-presidente do Instituto Brasileiro de Rastreamento de Ativos (IBRA), ex-coordenador acadêmico internacional do Instituto Brasileiro da Insolvência (IBAJUD) e membro de diversas entidades, como o Comitê do Agronegócio da Turnaround Management Association (TMA), a Insol International e o Instituto Iberoamericano de Derecho Concursal (IIDC). Ele idealizou e coordenou dois programas internacionais em insolvência e reestruturação com apoio da UNCITRAL (Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial Internacional) e atua como consultor do Banco Mundial. Também é professor de pós-graduação e palestrante em eventos nacionais e internacionais.