Os Desafios do Adulto Neuroatípico: Preconceito, Direitos e Equidade no Mercado de Trabalho - Juliana Rangel

Os Desafios do Adulto Neuroatípico: Preconceito, Direitos e Equidade no Mercado de Trabalho

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A inclusão do neuroatípico na vida adulta exige que o mercado corporativo supere o preconceito e reformule seus processos. Em entrevista ao *Podhelo*, a psicóloga jurídica Enila Nicotari e a psicóloga trabalhista Beatriz Puga revelam como a falta de informação adoece talentos e debatem os limites práticos entre direitos trabalhistas, adaptações necessárias e assédio nas empresas.

Enila Nicotari, Helóisa Pedrosa e Beatriz Puga

A Barreira do Preconceito e a Alta Inteligência Atípica

O diagnóstico de condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o TDAH na fase adulta traz alívio pessoal, mas esbarra em um mercado de trabalho ainda hostil. Para a psicóloga jurídica e graduada em Direito, Enila Nicotari, a desinformação é a raiz da exclusão.

Enila destaca que, embora o funcionamento neurológico seja diferente, o QI desses profissionais não é afetado. “Eles são inteligentíssimos e aprendem muito fácil, dependendo do grau de suporte”, pontua a especialista. No entanto, ela relata que a barreira do preconceito na contratação ainda é imensa. A solução primária não é mágica: exige que as empresas tenham a humildade de buscar conhecimento e capacitação especializada para entender como absorver essas mentes.

A Armadilha da Entrevista Tradicional e o Caminho da Equidade

Se a empresa decide incluir, o primeiro grande erro costuma acontecer logo na porta de entrada: o processo seletivo. A psicóloga trabalhista Beatriz Puga alerta que a entrevista tradicional — focada em perguntas e respostas rígidas — deixa o candidato neuroatípico extremamente acuado. Para avaliar habilidades reais em vez de extroversão, as lideranças precisam apostar em simulações práticas e dinâmicas mais transparentes.

Superada a contratação, surge o medo do gestor: como cobrar metas de alguém atípico sem cometer discriminação? Beatriz Puga é categórica ao recomendar que a cobrança exista, aplicando a regra da *equidade*. Como exemplo prático, se a meta é a entrega de um relatório, o gestor não muda o objetivo final, mas adapta o caminho — fornecendo instruções mais visuais ou em passo a passo, de acordo com a forma como o cérebro daquele colaborador funciona melhor.

Quando o Conflito Vira Caso de Justiça

Infelizmente, a falta de processos claros e o esgotamento mental não raro desaguam em infrações graves, fazendo com que o problema saia da mesa do RH e vá parar nos tribunais. É nessa transição que entra o trabalho minucioso da psicologia jurídica.

Enila Nicotari explica que sua atuação é baseada em avaliações psicológicas rigorosas, testemunhos e perícias que dão suporte direto aos juízes, seja na esfera trabalhista ou criminal. Ela traz o peso da escuta atenta, alertando que a negligência em ouvir abusos psicológicos e físicos — como os tristemente vistos em casos midiáticos de alienação parental — pode custar caro. No mundo corporativo, ignorar o assédio moral sofrido por um neurodivergente coloca a empresa na mira de severas sanções judiciais.

Ajuste Razoável ou Capricho Corporativo?

Para evitar que a situação chegue aos tribunais, as empresas precisam de regras claras sobre o que é inclusão. Uma dúvida comum dos empregadores é saber quando o pedido de um colaborador neuroatípico é uma necessidade real ou uma mera “frescura”.

Beatriz Puga ilustra essa linha tênue com um exemplo perfeito: se um funcionário autista tem sensibilidade auditiva, fornecer um fone abafador é um *ajuste razoável* que garante sua produtividade. Porém, se esse mesmo funcionário exige uma sala exclusiva quando o abafador já resolve o problema, o pedido ultrapassa a necessidade técnica e torna-se um *capricho*.

Entender essas nuances e aplicá-las estrategicamente não apenas evita processos judiciais, mas transforma o que antes era visto como “custo” em uma poderosa vantagem competitiva focada em inovação.

Assista ao PodHelo completo com Enila Nicotari e Beatriz Puga

Sessão FAQ (Perguntas Frequentes)

1. O que faz um psicólogo jurídico e como ele atua em conflitos?

A psicologia jurídica une conhecimentos do Direito e da Psicologia para atuar em litígios. O profissional realiza perícias, elabora laudos e atua como testemunha técnica, auxiliando juízes em esferas criminais ou trabalhistas (como em casos de assédio) e mediando conflitos complexos, como processos de adoção e alienação parental.

2. Todo colaborador neuroatípico se enquadra na cota PCD das empresas?

Não. De acordo com as leis atuais abordadas pelas especialistas, apenas o Transtorno do Espectro Autista (TEA) entra automaticamente na obrigatoriedade de cota para Pessoas com Deficiência (PCD). Outras condições, como o TDAH e a dislexia, dependem do nível de comprometimento e de avaliações periciais específicas.

Juliana Rangel

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